Ontem foi aniversário da minha avó. Noventa e seis anos de vida, dos quais seis ela passou presa à cama ou a uma cadeira de rodas. Está muito diferente daquela Vó Geralda da minha infância. O nariz, outrora bastante proeminente, quebrou-se a alguns anos num ímpeto de levantar-se da cadeira de rodas e firmar-se nas pernas que já não forneciam sustentação ao seu corpo. Hoje em dia, é um nariz menor e torto, marcado pela sonda amarela que adentra a narina esquerda. Por aquele tubinho minha avó toma as suas refeições. A boca agora mantém-se aberta como um grande túnel róseo, incapaz de emitir palavras, apenas sons guturais. Mas os olhos.... Apenas através daqueles pequenos olhos negros e brilhantes reconhecemos a implacável idosa que ali se encontra.
A marca registrada da minha avó sempre foi a austeridade. Uma senhora que se tornou viúva com cerca de quinqüenta anos e onze filhos para criar. Trabalhava dia e noite para bem criá-los; aprendeu a ser forte, dura como um tronco de carvalho - e desaprendeu o afeto e a ternura. Era uma avó ranzinza e muito séria, inclinada a dar lições de moral, com o semblante invariavelmente carregado.
Mas era, de fato, uma mulher surpreendente. Bebia cerveja como um homem, era fanática por futebol. O fato de ser independente e animada rendeu-lhe a pecha de "pra frente".... Dizem até que possuia uma pequena pistola e um soco inglês... Mas não posso afirmar com certeza - nunca tive uma conversa intensa com ela. Minha avó era do tipo bem reservado e que não perdia muito tempo proseando com crianças.
Exercia sobre os netos aquele fascínio que só as pessoas severas conseguem: conquistá-la era um desafio e provocá-la tornou-se uma diversão. Até mesmo porque não era difícil aborrecê-la: a casa, embora muito humilde, era um templo da limpeza e da perfeita arrumação, e o simples fato de estarmos dentro dela parecia preocupar minha avó.
Ontem, ali estava ela. A cadeira posicionada dentre a roda de filhos e amigos presentes (dos onze filhos, apenas cinco estavam ali; dos setenta netos, apenas oito) para que rezássemos o terço. Que outro presente poderíamos lhe oferecer? A disposição dos móveis é totalmente diversa daquela do tempo em que era senhora da casa; agora, fica por conta das enfermeiras o comando do lar. De camisola, imersa no som lúgubre que têm as orações destinadas aos doentes, os olhos da minha avó faiscavam. Pensei imediatamente no conto "Feliz Aniversário", encontrado em "Laços de Família", de Clarice Lispector.
Se pudesse, Vó Geralda levantaria e cuspiria no bolo. Aniversário sem filhos, sem netos, sem música e sem cerveja. Vestida por outras pessoas, com uma camisola cheia de babados - ela, que só usava sóbrios vestidos de chita. A casa arrumada por "estranhas", em nada lembra aquele "santuário" de outrora. Presa a uma cadeira de rodas, amarrada para não cair - Vó Geralda estava sempre andando, mexendo, catando copos, lavando pratos...
Sim, ela cuspiria no bolo. Mas não tem forças para isso. Nem para isso.
Manifestou sua indignação da única maneira que podia: pelos olhinhos negros, flamejantes, enquanto numa tentativa aflita de falar, gemia alto e sofregamente. Vovó ainda não desistiui de viver do seu jeito; ainda não desistiu de si mesma.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
terça-feira, 21 de agosto de 2007
domingo, 19 de agosto de 2007
Na Outra Margem do Rio

Em sua carta aos Hebreus, Capítulo 11, versículos 1-2, São Paulo faz uma excelente descrição da fé: "... é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem".
Acrescentando a este conceito uma noção visual, podemos imaginar um rio: numa margem está o que É, o presente; na outra, o que PODE SER. Duas realidades, ligadas por aquele curso d'água, que é a fé.
Somente pela fé - no sentido de confiança - vislumbramos certos sonhos, e somos capazes de suportar bem mais do que normalmente agüentaríamos.
Não fosse a antecipação daquilo que se pretende, essa certeza sobre o que ainda é incerto, um aluno jamais conseguiria estudar com afinco para ser aprovado em um vestibular. Um casal de namorados jamais sobreviveria à primeira crise no relacionamento, não esperassem serem felizes juntos. É a certeza daquilo que esperamos que alimenta a coragem e a tolerância em nós.
Conheci alguns casos em que o rio se alargou muito, engoliu um bom pedaço das margens e afastou muito as realidades, de modo que já não era possível avistar uma a partir da outra. A fé havia sobrepujado a própria expectativa, virando um rio caudaloso, indomável e muito forte. Em outros casos, o curso d'água secou, e seu leito transformou-se numa terra agreste e inóspita, quase impossível de atravessar.
Talvez, o segredo seja não esperar passivamente que própio rio una suas duas bordas. É muito fácil confundir esperança com passividade - e é nessa situação em que nossos sonhos se distanciam de nós. Seja por excesso de otimismo ou por falta dele, a fé pode tomar proporções inesperadas, e é necessário que ela exista na porção certa para interligar as realidades.
O melhor a fazer é adentrar o rio. Suportar o frio, as pedras do fundo, a correnteza. Não esperar até que ele vire um mar ou um deserto, mas trabalhar a fé, enquanto ainda se pode fazê-lo.
Elemento inerente ao ser humano, a fé é naturalmente dinâmica. Ou assim deve ser, para que se possa desfrutar da realização da promessa, e não meramente observá-la e saudá-la de longe, como se fôssemos peregrinos em relação aos nossos próprios sonhos.
terça-feira, 31 de julho de 2007
Estou postando aqui um texto que nem é meu e que tirei de outro blog. Nunca fiz isso antes, mas o conteúdo é significativo... Às vezes, as pessoas tendem a ser meio cegas em termos de relacionamentos, o que faz com que apenas palavras mais duras e cruas podem ser capazes de penetrar a couraça de contos de fadas e mitos que criamos acerca do amor.
"-Tem um cara por aí que vai querer dizer para todo o mundo que é seu namorado. Pare de marcar bobeira e vá ao encontro dele
-Não fique com alguém que não cumpre o que promete -Você merece uma porra de um telefonema
-Você merece ser convidada para sair
-Você pode levar mais tempo para encontrar sua auto-estima perdida do que um novo namorado, por isso reavalie suas prioridades baseada nesta premissa
-100% dos caras pesquisados disseram que nunca foram para a cama acidentalmente com alguém (mas muitos quiseram saber como esse acidente acontecia, e como podiam se envolver num deles)
-Tire-o completamente da vida. Deixe que ele sinta sua falta
-Ele não precisa lembrar que você é maravilhosa
-Você não pode reverter uma separação com conversa. Essa situação não está aberta a discussão. O fim do namoro é um ato definitivo, não democrático.
-A melhor vingança não é raiva, mas distância emocional, o mais rápido possível
-Não dê chance ao cara de rejeitar você de novo
-Não há mistério- ele foi embora e não era suficientemente bom para você
-É muito simples! É. Você vai conhecer muitos homens em diferentes estágios de recuperação de outros relacionamentos. Se ele realmente estiver a fim de você, vai superar os problemas rapidinho e tratar de não perdê-la. Ou então, deixará bem claro o que sente, sem nenhum mistério, e dirá, antes de mais nada, que nesse momento não poderá satisfazê-la. E então você pode ter certeza de que no minuto em que ele estiver pronto, sairá correndo para encontrá-la. Você é uma pessoa que não se esquece facilmente.
-Um amigo meu saiu pela primeira vez com uma mulher que mencionou que também estava saindo com um homem casado. Ele disse imediatamente para ela que não iam sair de novo, porque se ela não gostava de si própria o suficiente para ter um relacionamento equilibrado, por que ele deveria gostar?
-O que você deveria ter aprendido neste capítulo?
- Ele é casado - A menos que seja todo seu, ele ainda é dela
- Há homens legais e solteiros no mundo. Ache um e saia com ele.
- Você não é uma mulher fácil de se esquecer. Deixe que ele a encontre quando estiver pronto.
- Você já tem um cu. Não precisa de outro.
- Crie espaço na sua vida para as coisas gloriosas que você merece.
- Tenha fé. Que escolha nós temos?
- Relacionamentos de merda fazem com que vocês se sintam uma merda, e não foi para isso que foram postas neste mundo. "
"Ele simplesmente não está a fim de você- entenda os homens sem desculpas"- Greg Behrendt e Liz Tuccillo- Ed. Rocco
In: http://www.sonamadrugada.blogger.com.br/
"-Tem um cara por aí que vai querer dizer para todo o mundo que é seu namorado. Pare de marcar bobeira e vá ao encontro dele
-Não fique com alguém que não cumpre o que promete -Você merece uma porra de um telefonema
-Você merece ser convidada para sair
-Você pode levar mais tempo para encontrar sua auto-estima perdida do que um novo namorado, por isso reavalie suas prioridades baseada nesta premissa
-100% dos caras pesquisados disseram que nunca foram para a cama acidentalmente com alguém (mas muitos quiseram saber como esse acidente acontecia, e como podiam se envolver num deles)
-Tire-o completamente da vida. Deixe que ele sinta sua falta
-Ele não precisa lembrar que você é maravilhosa
-Você não pode reverter uma separação com conversa. Essa situação não está aberta a discussão. O fim do namoro é um ato definitivo, não democrático.
-A melhor vingança não é raiva, mas distância emocional, o mais rápido possível
-Não dê chance ao cara de rejeitar você de novo
-Não há mistério- ele foi embora e não era suficientemente bom para você
-É muito simples! É. Você vai conhecer muitos homens em diferentes estágios de recuperação de outros relacionamentos. Se ele realmente estiver a fim de você, vai superar os problemas rapidinho e tratar de não perdê-la. Ou então, deixará bem claro o que sente, sem nenhum mistério, e dirá, antes de mais nada, que nesse momento não poderá satisfazê-la. E então você pode ter certeza de que no minuto em que ele estiver pronto, sairá correndo para encontrá-la. Você é uma pessoa que não se esquece facilmente.
-Um amigo meu saiu pela primeira vez com uma mulher que mencionou que também estava saindo com um homem casado. Ele disse imediatamente para ela que não iam sair de novo, porque se ela não gostava de si própria o suficiente para ter um relacionamento equilibrado, por que ele deveria gostar?
-O que você deveria ter aprendido neste capítulo?
- Ele é casado - A menos que seja todo seu, ele ainda é dela
- Há homens legais e solteiros no mundo. Ache um e saia com ele.
- Você não é uma mulher fácil de se esquecer. Deixe que ele a encontre quando estiver pronto.
- Você já tem um cu. Não precisa de outro.
- Crie espaço na sua vida para as coisas gloriosas que você merece.
- Tenha fé. Que escolha nós temos?
- Relacionamentos de merda fazem com que vocês se sintam uma merda, e não foi para isso que foram postas neste mundo. "
"Ele simplesmente não está a fim de você- entenda os homens sem desculpas"- Greg Behrendt e Liz Tuccillo- Ed. Rocco
In: http://www.sonamadrugada.blogger.com.br/
quarta-feira, 27 de junho de 2007
Cultive seu lado dark
É, esse é um convite que pode parecer estranho aos outros. Ninguém quer desenvolver esse aspecto de sua personalidade. Somos criados para exaltar a felicidade contínua, o bem estar frenético, a alegria duradoura. Por isso lemos livros de auto-ajuda e horóscopos, buscamos a religião e terapeutas, assistimos a comédias românticas, "A Noviça Rebelde" e aos filmes do Capitão Jack Sparrow.
Mas, na verdade, é impossível ser feliz o tempo todo. De fato, é impossível sorrir sem antes chorar, acertar sem antes errar. Infelizmente, não temos um manual de instruções da vida, não podemos ganhar experiência sem antes... Bem, sem antes experimentar.
O lado dark é bem este: é quando você admite chorar, gritar, escutar música barulhenta e ver filmes do Stanley Kubrick. É composto daquele seu retrato horroroso, daquele dia que seu cabelo está absolutamente rebelde. É se vestir mais de preto do que roupas coloridas; é até mesmo deixar de desejar "bom dia" para os outros.
Não digo para ser assim todo o tempo, mas cultive seu lado dark com a mesma intensidade que você cultiva seu lado light. Cometa erros, seja grosseiro, seja amargo agora - mas para acertar, ser educado, ser doce depois.
Afinal de contas, não dizem por aí que o equilíbrio é a chave de tudo?
Mas, na verdade, é impossível ser feliz o tempo todo. De fato, é impossível sorrir sem antes chorar, acertar sem antes errar. Infelizmente, não temos um manual de instruções da vida, não podemos ganhar experiência sem antes... Bem, sem antes experimentar.
O lado dark é bem este: é quando você admite chorar, gritar, escutar música barulhenta e ver filmes do Stanley Kubrick. É composto daquele seu retrato horroroso, daquele dia que seu cabelo está absolutamente rebelde. É se vestir mais de preto do que roupas coloridas; é até mesmo deixar de desejar "bom dia" para os outros.
Não digo para ser assim todo o tempo, mas cultive seu lado dark com a mesma intensidade que você cultiva seu lado light. Cometa erros, seja grosseiro, seja amargo agora - mas para acertar, ser educado, ser doce depois.
Afinal de contas, não dizem por aí que o equilíbrio é a chave de tudo?
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Faz De Conta
Todo mundo já ouviu histórias de contos de fadas - pelo menos uma vez. Geralmente, quando crianças. Porém, em outras situações, ouvimos esses mesmos contos quando adultos. E nos pegamos num dilema: acreditar ou não acreditar?
Depende muito de sua carência. Em casos de carência afetiva, você quer mesmo que um princípe encantado venha lhe resgatar de sua tediosa existência; para os carentes de imaginação, nada melhor do que um pouco de mágica na vida. Às vezes, tudo o que precisamos é pensar que aquele sapo vai virar um homem lindo, se lhe dermos tempo e atenção necessária.
Mas aplicar a lógica do faz de conta no mundo real pode ser perigoso para o coração. Este dificilmente é enganado, e simplesmente fechar os olhos e fingir não vai mudar isso. É aquele pequeno espinhozinho que cutuca de vez em quando: "há algo errado aqui, não acha?" - ele nos diz.
Talvez sapos virem princípes no mundo real. Não sei, nunca vivenciei isso. Meus sapos sempre foram sapos. Quando se pareciam com princípes, era eu, forçando terrivelmente a vista, apertando os olhos até enxergar sombras por entre a cortina de cílios.
Por vezes, tenho até medo de a fantasia me abandonar completamente, e eu me encontrar sozinha no escuro. Mas, para quem não quer viver enganada, o faz de conta não serve. Eu não quero fazer de conta que estou feliz. Eu não quero fazer de conta que está tudo bem. Prefiro imensamente enxergar a verdade - por mais que doa. E dói.
Depende muito de sua carência. Em casos de carência afetiva, você quer mesmo que um princípe encantado venha lhe resgatar de sua tediosa existência; para os carentes de imaginação, nada melhor do que um pouco de mágica na vida. Às vezes, tudo o que precisamos é pensar que aquele sapo vai virar um homem lindo, se lhe dermos tempo e atenção necessária.
Mas aplicar a lógica do faz de conta no mundo real pode ser perigoso para o coração. Este dificilmente é enganado, e simplesmente fechar os olhos e fingir não vai mudar isso. É aquele pequeno espinhozinho que cutuca de vez em quando: "há algo errado aqui, não acha?" - ele nos diz.
Talvez sapos virem princípes no mundo real. Não sei, nunca vivenciei isso. Meus sapos sempre foram sapos. Quando se pareciam com princípes, era eu, forçando terrivelmente a vista, apertando os olhos até enxergar sombras por entre a cortina de cílios.
Por vezes, tenho até medo de a fantasia me abandonar completamente, e eu me encontrar sozinha no escuro. Mas, para quem não quer viver enganada, o faz de conta não serve. Eu não quero fazer de conta que estou feliz. Eu não quero fazer de conta que está tudo bem. Prefiro imensamente enxergar a verdade - por mais que doa. E dói.
sábado, 9 de junho de 2007
A Cabeça Velha
As pessoas envelhecem de muitos jeitos. Alguns, surpreendem-se com uma pele cheia de rugas; outros com cabelos brancos. Uns se descobrem envelhecidos porque cansados da rotina e do trabalho. Mas a pior é a velhice da mente, do espírito.
A cabeça antiquada faz sofrer muito seu dono. Ele não consegue transcender seus próprios limites, não consegue jamais sair de si mesmo e vive preso à ilusão de que será capaz de mudar, a sua semelhança, o mundo - ao invés de, simplesmente, viver nele. Quem convive com essa "peça" também passa por maus bocados. É sempre um choque: de pensamentos, de experiências, de gênios. Carece muita paciência.
O mais importante, ao lidar com essas cabeças velhas, é admitir que eles não vão mudar tão facilmente - isso é, se mudarem. A inflexibilidade acompanha a mente antiquada como acompanha os músculos idosos.
Não há tristeza maior no mundo do que sofrer de reumatismo espiritual.
A cabeça antiquada faz sofrer muito seu dono. Ele não consegue transcender seus próprios limites, não consegue jamais sair de si mesmo e vive preso à ilusão de que será capaz de mudar, a sua semelhança, o mundo - ao invés de, simplesmente, viver nele. Quem convive com essa "peça" também passa por maus bocados. É sempre um choque: de pensamentos, de experiências, de gênios. Carece muita paciência.
O mais importante, ao lidar com essas cabeças velhas, é admitir que eles não vão mudar tão facilmente - isso é, se mudarem. A inflexibilidade acompanha a mente antiquada como acompanha os músculos idosos.
Não há tristeza maior no mundo do que sofrer de reumatismo espiritual.
terça-feira, 5 de junho de 2007
O Gosto Amargo Que Fica
Quem já desistiu de alguma coisa (ou de alguém) na vida sabe o gosto amargo que isso deixa na boca. É penoso, e a maior parte do tempo você passa se convencendo de que é para o seu bem. "Eu mereço mais que isso" ou " está na hora de assumir uma postura, antes que fique tarde demais"...
A gente sofre, mas abre mão. Talvez por cansaço, talvez por maturidade, talvez por ânsia de mudanças. Mas a gente sofre: o gosto amargo fica. E, a menos que você seja muito decidido, olhará para trás, com saudades daquele docinho que antes alegrava o seu dia.
Aquela música especial, aqueles lugares marcantes... Eventualmente, tudo se dilui na memória - o açúcar vai ganhando generosas doses d'água, até que surge... O gosto acre. Será que algum dia nos acostumamos com ele?
Acho que não. Mesmo que aquele mel já não exista, lembramos dele. Quem já provou o paraíso, não se acomodará jamais no purgatório. Porque, de fato, o amargo é isso: é voltar ao limbo, ao indefinido. É fazer o retorno, parar, pensar, repensar. É ver que aquele caminho se fechou - ou bom, ou ruim - por escolha sua. E que é hora de tomar novas direções. Ah, e o gosto amargo que fica? Bem, é o pedágio que pagamos para adentrar a nova estrada...
A gente sofre, mas abre mão. Talvez por cansaço, talvez por maturidade, talvez por ânsia de mudanças. Mas a gente sofre: o gosto amargo fica. E, a menos que você seja muito decidido, olhará para trás, com saudades daquele docinho que antes alegrava o seu dia.
Aquela música especial, aqueles lugares marcantes... Eventualmente, tudo se dilui na memória - o açúcar vai ganhando generosas doses d'água, até que surge... O gosto acre. Será que algum dia nos acostumamos com ele?
Acho que não. Mesmo que aquele mel já não exista, lembramos dele. Quem já provou o paraíso, não se acomodará jamais no purgatório. Porque, de fato, o amargo é isso: é voltar ao limbo, ao indefinido. É fazer o retorno, parar, pensar, repensar. É ver que aquele caminho se fechou - ou bom, ou ruim - por escolha sua. E que é hora de tomar novas direções. Ah, e o gosto amargo que fica? Bem, é o pedágio que pagamos para adentrar a nova estrada...
sábado, 2 de junho de 2007
Dia de Chorar
Vez ou outra nos deparamos com um dia de chorar. Ele pode acontecer depois de um sermão na madrugada, depois de um mal-entendido com seu amor, depois de decepcionar um amigo.
Quando chega esse dia, o céu mais azul parece cinza; você pode até tomar um banho de sol, que o sol não lhe esquenta. Seu corpo dói, sua cabeça dói, sua consciência dói.
Nessas ocasiões, seu melhor amigo é um travesseiro, um cobertor ou -quem sabe - até uma árvore. Você tem que escolher um companheiro mudo. Os companheiros que falam vão ficar preocupados, provavelmente não vão saber o que dizer. Você vai olhar nos olhos deles por detrás das suas lágrimas e vai sentir pena - de si mesmo e deles. Quem quer colocar os amigos nessa situação?
Não. No dia de chorar, além de sozinho, você fica inquieto porque nenhum lugar lhe cabe. Nenhuma atitude parece apropriada também: peço desculpas aos pais que deixei preocupados? Pego o telefone e ligo para o amor? Procuro justificar-me com o amigo?
Como dá para perceber, sair do dia de chorar requer coragem, e coragem genuína.
Coragem... É complicada, pois é preciso sair de si mesmo, pisar no orgulho, engolir as lágrimas. É pensar: e daí se ele descobrir que eu gosto dele mesmo? E daí se eu abrir mão do meu ponto de vista por meus pais? E daí pedir desculpas p'ra aquele amigo?
O principal no dia de chorar é não deixar que este vire uma semana, um mês, um ano... Porque isso até acontece fácil... Bem, tudo o que não requer coragem acontece fácil.
Quando chega esse dia, o céu mais azul parece cinza; você pode até tomar um banho de sol, que o sol não lhe esquenta. Seu corpo dói, sua cabeça dói, sua consciência dói.
Nessas ocasiões, seu melhor amigo é um travesseiro, um cobertor ou -quem sabe - até uma árvore. Você tem que escolher um companheiro mudo. Os companheiros que falam vão ficar preocupados, provavelmente não vão saber o que dizer. Você vai olhar nos olhos deles por detrás das suas lágrimas e vai sentir pena - de si mesmo e deles. Quem quer colocar os amigos nessa situação?
Não. No dia de chorar, além de sozinho, você fica inquieto porque nenhum lugar lhe cabe. Nenhuma atitude parece apropriada também: peço desculpas aos pais que deixei preocupados? Pego o telefone e ligo para o amor? Procuro justificar-me com o amigo?
Como dá para perceber, sair do dia de chorar requer coragem, e coragem genuína.
Coragem... É complicada, pois é preciso sair de si mesmo, pisar no orgulho, engolir as lágrimas. É pensar: e daí se ele descobrir que eu gosto dele mesmo? E daí se eu abrir mão do meu ponto de vista por meus pais? E daí pedir desculpas p'ra aquele amigo?
O principal no dia de chorar é não deixar que este vire uma semana, um mês, um ano... Porque isso até acontece fácil... Bem, tudo o que não requer coragem acontece fácil.
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